"RESQUÍCIOS DEPRESSIVOS, SUJOS E NOJENTOS" trata-se de textos onde exponho de forma irônica, metafórica, crítica e subversiva a condição humana. Esse blog pode causar estranhamento e até mesmo raiva, pois mistura o real com o fictício sem embelezamentos, indo a fundo no que o ser humano tem de pior: a ignorância, a covardia, os tormentos, a utilização da sexualidade de forma desrespeitosa, os vícios, a solidão, etc. Qualquer semelhança entre fatos e os textos aqui presentes é mera coincidência. As características do texto não representam necessariamente o ponto de vista do autor que vos escreve.

Respeite a arte! Ao reproduzir em outros lugares a obra de algum artista, cite o autor. Todos os textos aqui presentes foram escritos por Mao Punk.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

REFLEXÃO SOBRE IMPORTÂNCIAS

Eu pensei que estivesse finalmente superando meus apegos. Eu pensei que, dessa vez, eu tivesse dado um passo largo, muito largo. Eu pensei que eu havia compreendido o fim dos momentos idealizados, das coisas jamais vividas que me acompanham em pensamentos...

O que é “importância”? Algo só pode ser importante quando, de fato, está em contato com nossa vida, moldando nossa forma de lidar. De acordo com o dicionário Michaelis da Língua Portuguesa:

Importante – im·por·tan·te – adj m+f
1 Que tem importância.
2 Que não se pode esquecer ou deixar de atender.
3 Digno de apreço, de estima, de consideração.
4 Que tem grande credibilidade; que exerce notável influência.
5 Que tem muito valor ou preço notável.
6 Que resulta em proveito ou interesse; que se pode prestar a determinado fim; proficiente, útil, vantajoso.

Em meio a necessidade de me atualizar em meu próprio tempo, observando que não sou mais quem eu fui a anos atrás, percebendo o grande apego em coisas que ficaram no passado, questionei-me sobre coisas que são importantes para mim.

Das definições do nosso amigo dicionário, sempre me apeguei às numeradas de 1 a 5. De fato, coisas que aconteceram na minha vida são consideradas importantes por eu não conseguir esquecer, por serem dignas de grande estima, por toda a influência que exercem na minha forma de lidar com as coisas, por todo o valor indescritível que carregam...

Considerei uma das coisas mais importantes da minha vida algo que por longos anos influenciou e moldou minha forma de lidar com tudo ao meu redor. E isso porque, por longos momentos, isso esteve diretamente ligado às minhas dúvidas, aos meus anseios, ao único sonho que tive na vida, à sensação de troca, às expectativas mais emocionantes que já pude sentir... Mas os tempos mudaram e demorei para entender que a vida segue por caminhos nem sempre aguardados.

Importante – im·por·tan·te – adj m+f
6 Que resulta em proveito ou interesse; que se pode prestar a determinado fim; proficiente, útil, vantajoso.

E então me dei conta de que aquilo que considero uma das coisas mais importantes da minha vida já não resulta em proveito, já não dialoga com as necessidades que carrego hoje em dia, já não é vantajosa para mim que, em meio a tantas mudanças, preciso respirar um ar totalmente renovado, que encha de proveito e utilidade prática e constante. Novos ares!

Essa descoberta doeu. Dói admitir que aquilo que consideramos importante não dialoga com as nossas necessidades atuais. Dói, porque o apego ainda existe. E não há absolutamente nada que se possa fazer a respeito.

No entanto, de certa forma, quando me dei conta disso, foi libertador. Essa era a luz no fim do túnel, o outro lado da ponte. Admitindo que essa importância não dialoga com minhas necessidades atuais e que, portanto, não resulta em proveito ou vantagem, ficaria mais fácil de seguir e considerar o desapego.

Eu considerei o desapego. E que fique claro: o desapego não exclui o amor. O amor é algo que vai além, que não enfraquece, que apenas é reafirmado a cada dificuldade, barreira ou descoberta. O amor é a força mais potente que existe e nem mesmo essas descobertas são capazes de abalar, ferir ou marcar o amor. E eu não mudaria absolutamente NADA do amor que sinto. E intacto ele permanece.

Mas amor também é libertar e saber se libertar. É soprar pétalas ao vento e saber que as pétalas ainda serão pétalas quando alcançarem outros lugares, embora não estejam mais visíveis aos olhos, embora não estejam mais presentes ao toque...

A pétala que amo me perfumou a mão. E isso foi importante. A pétala já não pode fazer nada por mim. Sua importância se conjuga no passado. A pétala que amo foi levada pelo vento. E eu a amo.

Ah, esse é o raciocínio do desapego! Eu podia ver o outro lado! Eu juro que podia, mesmo que através de grossa neblina...

Mas hoje eu sonhei com o teu abraço e acordei com perfume de pétala.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

AS CANÇÕES EM MEUS OUVIDOS

As pessoas se sentem mal ao escutar canções de sofrimento, de dor, de paixões perdidas, de amores impossíveis. Eu não. Eu me sinto mal quando eu escuto as canções de amores correspondidos, de paixões compartilhadas, de felicidades mútuas… Essas, sim, me doem!

E me doem porque, quando eu as escuto, elas não dizem absolutamente nada sobre mim, embora eu pense em você. E por isso me dói tanto! Porque enquanto eu ouço essas canções, essas letras intensas, essas declarações musicais, imagino você as escutando e pensando no grande amor da sua vida. E não sou eu.

Nas estrofes e rimas felizes de corpos unidos, de lábios grudados, de entrega de alma, nunca fui eu. Nunca serei eu. Eu não sou uma música. Eu sou o chiado, o ruído no rádio, o risco no disco, a interferência. Eu não sou som que valha os quatro minutos de uma música. Eu não valho o pensamento que acontece enquanto a música toca. Eu não emito o som que eu queria em seu coração.


E é isso. Que você possa escutar essas músicas deitada com quem você ama. Que possa escutá-las pelas ruas lembrando e sentindo o quanto esse amor faz parte de você, o quanto vocês se completam, o quanto é eterno, o quanto você espera reviver esse momento e o quanto espera aqueles beijos, aqueles abraços, o sexo cheio de desejo, a entrega cheia de amor… Que possa escutar essas músicas e sentir que foram feitas para vocês. E quando eu as escutar, terei certeza que, à parte de minha dor, você merece essas canções em seus ouvidos.


domingo, 3 de janeiro de 2016

PIMENTA NA MÃO DOS OUTROS

Com gentileza, ela pediu que lhe passasse o molho de pimenta:

- Por favor, você poderia me passar a pimenta depois de usar?

Assim que terminou de usar, ele colocou o frasco do molho sobre a mesa.

- Você não escutou o que eu disse?! – Perguntou indignada – Ei! A pimenta!

- Desculpa! Aqui está – Ele pegou novamente o frasco e estendeu a mão a ela.

Sem que ela colocasse uma gota sequer do molho em seu lanche, bateu o frasco com certa força na mesa e reclamou:               

- Será que você não presta atenção em nada? Que saco! É mais fácil comer sozinha do que comer com você, porque pelo menos teria um galheteiro com tudo o que eu quero à minha disposição.

- Você está falando sério? – Perguntou ele em um tom calmo, porém desconfiado.

- Não, não! Estou mentindo! Não existem galheteiros na porra de nenhuma lanchonete. – Disse ela em tom irônico – O que você acha? Pareço estar brincando com você?

- Céus! Você nunca falou assim comigo! Eu não acredito que você se irritou por conta de um frasco de molho de pimenta!

- Não é a merda do frasco, cacete! É você!

- Eu?! Você não pode estar falando sério! O que está acontecendo? Estou espantado com sua atitude!

- Eu não aguento mais! É muita coisa para eu aguentar! – O tom dessa vez pareceu, de certa forma, desesperado. Ele segurou suas mãos com força. Indagou:

- O que você tem que aguentar? Fala para mim. Sabe que estou aqui para ajudar no que for preciso.

Com a mão direita ela apanhou o copo de suco, enquanto a mão esquerda permanecia segurando a mão dele com força. Deu um ou dois grandes goles.

- Não, não é nada. Esquece. É que... – Olhou nos olhos dele por três segundos, depois disso desviou o olhar. Não suportou o olhar seguro que ele transparecia, aquele olhar firme, decidido, tomado de razão e sentimento. Vagarosamente ele soltou sua mão esquerda.

- Eu entendo. Eu entendo... – Lamentou-se ele.

Com a mão esquerda trêmula, ela apanhou novamente o frasco do molho de pimenta e deixou-o cair ao chão. O frasco quebrou-se em pedaços. Nada mais poderia ser aproveitado.

Após segundos eternos de silêncio, os dois, com olhos marejados, perguntaram um ao outro:

- E a conta, quem é que paga?



quarta-feira, 29 de julho de 2015

ITINERÁRIO ERRANTE

Cara fechada. Ela estava com a cara fechada, como se o dia tivesse sido uma bosta. Talvez porque estivesse no ônibus, em horário de pico. Mas acontece que ela estava sentada, o que já era motivo para não estar de mau humor. Aliás, estava sentada e muito bem acomodada, com as pernas bem esticadas, em direção ao banco que ficava de frente para o seu. Eram aqueles bancos em que as pessoas se sentam e ficam, de forma bem constrangedora, de frente para outras. Ela esticava as pernas em direção ao assento a meu lado.

Seu rosto não é o que chamariam de espetacular. Para mim era um rosto muito lindo! Grandes olhos expressivos. Rosto fechado, combinando com seus trajes sérios. Ela trajava preto: botas de feltro - ou algo que o valha - pretas, calça preta, blusa de frio preta. E, combinando com o contraste entre seu humor fechado e aquela beleza aberta em seu rosto, suas unhas estavam pintadas de branco. Carregava uma bolsa rosa-bebê. Acho que a bolsa era o que mais estava em desacordo, mas por favor, não pense que sou algum consultor de moda ou blogueiro teen. São apenas observações que, confesso, não têm qualquer importância.

As pernas esticadas em direção ao assento a meu lado. Céus, como eu queria que fosse em direção a mim! Aquele semblante fechado, aqueles olhos expressivos. Quisera eu aqueles olhos fixados no meu olhar, com uma expressão de quem me pede para tirá-la do sério! Mas são apenas perversões de minha mente. Em minha mente, aquele ônibus já tinha se transformado em um motel público itinerante e nenhum semáforo poderia nos impedir de avançar os sinais de nossos corpos.

Imaginei como seria se o ônibus fosse realmente um grande bacanal, um antro das perversões mais absurdas. Ler-se-ia no letreiro: "Largo das Delícias", e alguém no ponto de ônibus estaria esperando o "Apertado dos Prazeres", porque o largo não dá tanto tesão quanto o apertado. Pagar transporte? Só se fosse pagando boquete ou umas linguadas bem dadas. Se todos os assentos estivessem ocupados, poder-se-ia sentar no colo dos outros. Assento preferencial: escolha o tamanho mais apropriado! Ou apenas um assento longe de falos. Por certo que falos pervertidos já existem aos montes em qualquer transporte público. E, com certeza, isso é totalmente dispensável!

Percebi que todo esse pensamento era a coisa mais ridícula e broxante. Talvez servisse como roteiro para algum filme pornô estúpido, para que fetichistas - tão estúpidos quanto - pudessem se esbaldar batendo punheta. Absolutamente deprimente!

A moça de semblante sério continuava bem à vontade, trajando preto. Acho que era luto pela morte da minha sanidade mental. Ela me chamava a atenção. Ela realmente me chamava a atenção!

De forma alguma queria que aquele ônibus fosse um motel itinerante! Eu apenas gostaria que ela não descesse do ônibus enquanto eu estivesse lá. Foi uma excelente companhia!

Quem foi que disse que a solidão não faz bons contatos? Ainda que fantasiosos, são ótimos contatos!

segunda-feira, 2 de março de 2015

EM CURSO

- Olá! Eu desejo pegar meu diploma de idiota.
- Seu nome?
- (...)
- Ok, (...)!  Deixe-me verificar... Olha, para mim consta aqui que você ainda não concluiu.
- Então será que posso trancar o curso?

sábado, 16 de agosto de 2014

PROPOSTA

- Já sabe em quem vai votar esse ano?

- Não votarei em ninguém.

- Como assim?! Não vai me dizer que vai anular o voto, né?

- E por que não? Eu não acredito em nenhum político, não.

- Aff... que bitolação! Então o que você propõe?

- Eu proponho que você se foda.



terça-feira, 3 de junho de 2014

A CONFISSÃO

- Eu te amo, amor! Você é o homem que sempre sonhei!

- Eu... Eu também te amo. E...

- O que foi, amor? Tá tudo bem?

- Sim... Sim. É... tá tudo bem...

- Sua voz, seu tom. Cê tá estranho. Tem certeza que tá bem? Aconteceu alguma coisa?

- Tô bem, sim... eu só...

- Só...?

- É que... Olha, eu preciso te contar uma coisa!

- Contar uma coisa? Não brinca comigo, amor! O que houve? Fala logo!

- Calma! CALMA, POXA! Eu vou falar... é que... é que é difícil ter que te contar isso...

- O que você fez?!!!

- CALMA! Por favor, céus! Tenta ser compreensiva! Não é fácil ter que te falar isso! Poxa... Céus! Como começar?

- Comece de qualquer jeito! Mas me conta agora o que tá acontecendo!!!

- Poxa, amor! Você sabe que te amo! E sabe que o que estamos vivendo é intenso, é forte, é real! Eu nunca me senti assim antes e tudo o que vivemos sempre me fez muito bem, mas...

- Mas o quê? Se tá tudo bem entre a gente, qual é o problema então? O que você tá escondendo de mim? O que eu fiz pra você?

- NADA, AMOR! Por favor, você não me fez nada! Não tem nenhum problema com você!

- Ah, claro! Agora você vai dizer que o problema não é comigo, é com você mesmo! Você não me quer mais? É isso?

- Não fala isso, poxa! Eu te quero! Sempre te quis! E acho que sempre vou te querer! SEMPRE! Mas as coisas não são tão simples assim. E eu sinto que preciso te contar isso, senão não posso ficar em paz comigo mesmo.

- Chega! Eu não aguento mais! O que você tem pra me contar?

- Amor... EU SOU POETA!

sábado, 4 de janeiro de 2014

EXPECTATIVAS PARA A PUTA QUE PARIU

E descobriu-se que expectativas são desnecessárias. A ansiedade que surge em um momento é um sinal para que o momento seja vivido, para que tudo seja expresso naquele mesmo instante. Criar expectativas é tentar adiar erroneamente um momento inadiável.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

QUASE A DIALÉTICA

Não sei bem dizer se meu lugar era ali. Nem sei dizer se tenho um lugar reservado neste mundo. Aliás, à merda esse papo de “lugar reservado”! Nunca fui fã de barreiras, de coisas que me impedissem de andar livremente. De qualquer forma, por que eu permaneci ali parado?

Acontece que contigo sempre tive tantos motivos para sorrir... E acredito ainda ter! É que o riso vem tímido, como se quisesse sorrir em outros ares. Bem me lembro dos versos, aqueles versos de Vinícius... A dialética se aplica aqui. Ou quase. Mas acontece que sou feliz.

Entenda: eu sou feliz. Eu tenho em você uma parte da felicidade. Mas é uma parte, meu bem. O todo é infinito e desconheço meus próximos sorrisos. Eu só não consigo mais encontrar tantos deles em você, não mais do que aqueles já concretizados, aqueles eternizados ou aqueles risos quase apagados de quando você olha para meus escritos, relembrando o que era para ter sido e nunca foi. Nós nunca fomos um. E nunca seremos.

Mas eu estou sorrindo agora. E é por você. É por ter essa parte de felicidade que ainda se anuncia no seu jeito de me evitar, de me querer por perto a todo custo, de não saber dizer o quanto faço parte de seus desejos mais contidos. E enquanto conversamos, meu bem, isso tudo nos traz a sensação de que nos completamos. E nos completamos como duas peças de um quebra-cabeça de um milhão de peças.

Mas me deixe agora! Apenas deixe que eu respire a possibilidade de outras entregas! Sei bem que está ocupada, meu bem. E sei que te trouxeram mais risos do que um dia eu poderia te dar. E está tudo bem.

Eu sei que você me quer. É bobagem, você bem sabe. Sou apenas uma parte da felicidade. O todo é infinito e você desconhece seus próximos sorrisos.

Só não se esqueça de que os versos também são infinitos. No mais, que a dialética não seja a poesia de sua vida.


sábado, 1 de junho de 2013

O QUE É SAUDADE?

Às vezes eu penso no que é saudade.
Talvez seja só o sentimento absurdo de manter a mente no que não existe.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A ANARQUIA DO SENTIR

Somos livres no que nos concerne ao arbítrio. Mais livres são nossos sentimentos. E, desconhecendo tanto um fato quanto o outro, seguimos para uma prisão de nós e de tudo.

Ignorando a aceitação de nós mesmos, desacreditamos de tudo aquilo que existe de mais real: o sentir. O resto, todo o resto, é apenas a criação cômoda do não aventurar-se.

Desconhecemos, assim, a liberdade. E já não podemos libertar ninguém! Para dar liberdade é preciso reconhecer que sentimentos são livres. E quando não o reconhecemos, tornamos por aprisionar o princípio da liberdade.

A liberdade implica em reflexão. Eis o nosso maior medo: e se descobrirmos, através da reflexão, que essas fortalezas de concreto, essas celas, essas regras, esses hábitos e imposições nada mais são do que a mão que cala nossa alma? E se descobrirmos que estamos limitando o próximo de expressar o que está impresso dentro de si? E se descobrirmos que nem tudo é como queremos, mas que temos a possibilidade de criar infinitos caminhos?

Somos livres! Só precisamos descobrir o que já está declarado.



domingo, 12 de maio de 2013

COMETAS


Pessoas interessantes são raras. São cometas! Aparecem com enorme intervalo de tempo e sua aparição é rápida! E quando isso ocorre, apenas aguçam nossos sentidos, mas estão longe de nosso alcance.

Há quem tem a sorte de capturar cometas. Até hoje apenas admirei. Ainda assim, que belo espetáculo esses cometas nos trazem!

Estou certo de que avistei um cometa em minha janela.

Enquanto isso, minha mente voa mais alto que os cometas no céu...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

DELÍRIO

Não era ela. Mas eu a vi naqueles cabelos, naqueles olhos, naquela boca... E, ingenuamente, desejei aquela figura da mesma forma. No entanto, eu bem sei que desejei aqueles cabelos, aqueles olhos, aquela boca não por serem os cabelos, os olhos e boca de quem realmente eram, mas porque neles eu a vi.

Eu a vi isenta de minha existência, como se a vida pudesse nos reapresentar, como se houvesse uma nova chance. Como se...

Não era ela. Jamais poderia ser! Nem sequer poderia eu sentir o mesmo desejo! Aquele desejo que despontou foi apenas o que ainda possuo, o que nunca passou, o que ainda me faz apaixonado.

Não era ela. Mas adoraria provar de seus lábios e, em um único beijo, entregar-me às duas.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

PLASTICIDADE, EIS TEU MUNDO!

Aos catorze anos, possuía um hábito estranho. Adorava a coleção de bonecas de sua irmã mais velha, de vinte anos. Mas não porque ele brincava com elas – por certo que nisso não haveria nada de estranho –, mas sim porque ele tinha atração por elas.

Sua irmã cuidava muito bem daquelas bonecas e tinha um cuidado todo especial com seus cabelos lisos e brilhosos. Penteava, com a pequena escova para bonecas, aqueles fios, diariamente, antes de dormir. Sua coleção era seu mimo, lembranças de sua infância.

Durante a tarde ela trabalhava como recepcionista em um escritório de uma empresa de produtos de barbear. Ele estudava em uma escola pela manhã e durante a tarde ficava sozinho em casa, pois seus pais também ficavam fora.

A televisão o entretinha durante um bom tempo. Gostava daqueles programas estúpidos com dançarinas ou assistentes de palco, principalmente se elas eram magras, loiras, de cintura fina. Gostava, mas, de todo modo, elas não despertavam nele qualquer outra emoção que não servisse unicamente como incentivo para lembranças de algo que ele julgava melhor: as bonecas de sua irmã.

Aquelas dançarinas e assistentes no fundo eram tão sem graça! O que nelas aparentemente era atraente simplesmente assim o era pela semelhança com as bonecas, mas nada que chegasse perto da beleza perfeitamente plastificada de suas musas de aproximadamente vinte centímetros.

Instigava-se e corria para o quarto de sua irmã, onde podia encontrar as bonecas desimpedidas, livres, convidativas. Já sabia como tirar a roupa de cada uma delas e colocá-las de novo, sem que aparentasse que alguém tivesse mexido.

Ele tirava as roupas das bonecas, reservava os pequenos paninhos em cima da cama, ia até o banheiro com as bonecas desnudas e esfregava-as em seu pau, em um ato de entrega vital. Sabia muito bem que sua irmã não podia sequer desconfiar desse hábito, portanto tomava muito cuidado com os cabelos. Não poderia jamais gozar nos cabelos! Aqueles fios não podiam molhar, pois certamente estragaria todo o cuidado que sua dona teve até então com seus penteados escorridos. Enquanto a porra ficasse só pelo corpo, não haveria problema, pois água, sabonete e esponja resolviam bem o problema. Depois, poderia ainda pentear as bonecas novamente no momento de guardá-las em seu lugar, o que normalmente fazia.

Todo dia realizava a mesma coisa. Gostava de gozar em cima dos peitos durinhos. Tinha certeza que garota alguma poderia ter peitos tão firmes! Sempre tomava cuidado com os cabelos, segurava-os para cima, com a palma da mão esquerda, enquanto a direita segurava simultaneamente a boneca e o pau.

Sempre escolhia uma delas para receber a homenagem principal. Dessa vez escolheu a mais lisinha – provavelmente a última a entrar para a coleção. Sentia-se uma criança satisfeita e acelerou seu movimento contemplativo como jamais fizera antes! E, no ápice de sua atividade recreativa, acabou gozando mais ansioso do que de costume e seu jato adentrou os belos fios loiros de cabelo de sua parceira, que certamente não estaria nada satisfeita se fosse uma parceira real.

“Caralho! Caralho!”, exclamou com pavor! Começou a chorar incontrolavelmente. Tentou lavá-la a medida do possível, mas aquela porra parecia chiclete! Algum resto de sêmen, em pequeninos pedaços, não saiu com a rápida lavagem feita pelo garoto assustado. Em seu temor e apreensão, recolheu rapidamente as bonecas e nem sequer conseguiu vesti-las ou penteá-las direito.

Agora aquela boneca que houvera escolhido como parceira sexual parecia ter seborreia. Certamente seria mais difícil para a dona penteá-la esta noite.

Sua irmã não percebeu as coisas fora do comum, certamente pelo cansaço arrebatador. Pensou apenas que havia se esquecido de pentear a boneca no dia anterior, por isso aquele cabelo estava estranho. O que seriam aquelas sujeiras ao longo dos fios? Não gastou muito tempo pensando nisso. Estava cansada demais para refletir sobre banalidades. Mas achou estranho as roupas estarem tão tortas. Dormiu um sono profundo.

Ele, por sua vez, não conseguiu dormir. Não mais assistiu à televisão durante as tardes. E pensou que talvez peitos carnudos não fossem tão ruins quanto supunha.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

AMOR, MEU AMOR...

Voltava do trabalho. Você sabe, trabalho é estresse, rotina. É, até mesmo, engrenagem para mover o pensamento de que a vida fora dele é uma bosta: “Que grande merda trabalhar e não ganhar nada! Mas tudo bem, chegarei em casa e descansarei. Não, não. Espere! Tenho afazeres. E tenho aquele corno reclamando das coisas que faço ou deixo de fazer. Aquele escroto com seu jornal do dia e suas roupas engorduradas! E suas cuecas nojentas. E seu charuto fedorento...”

Andava pelas ruas, sem vontade de nada. Mas ainda não havia perdido o gosto em observar o mundo ao redor. Notou aquele muro colorido em meio ao lixo jogado a céu aberto. As pichações não tiravam a poesia da coisa. Talvez, estranhamente, complementavam a obra, ao menos naquele exato momento. E até mesmo as baratas pareciam dançar em meio aos papéis jogados e a urina seca.

Bancas de jornal, edifícios caindo aos pedaços, farmácias, prostíbulos, lojas de roupa... Ela parou para olhar o anúncio da loja. Um cartaz com os dizeres “felicidade não se compra, mas nela você pode investir”. Na foto, um homem – na casa dos trinta –, bonito, bem trajado, com um belo sorriso estampado, semblante de pessoa bem sucedida. Rosto de quem comprou e foi feliz para sempre. Até mesmo porque a foto eternizou aquele sorriso mercantil. Ou pelo menos o eternizou até o momento daquele papel ir para a reciclagem. Certo! Sejamos mais realistas: até aquele papel ser jogado em qualquer bueiro imundo, empesteado de ratazanas famintas.

A questão é que ela parou não por um minuto, mas por dez longos minutos frente à foto. Ela analisou cada pedaço de madeira morta do cartaz, cada pingo de tinta impressa, cada detalhe do belo homem. Só não analisou seus suspiros estúpidos no meio da rua. Não notou a boca semiaberta e os olhos brilhando. O toque do celular a despertou.

- Espero que esteja em casa logo! Estou morrendo de fome e não tem uma porra de mistura sequer nessa casa! E mesmo que tivesse, a louça está toda suja! Esqueceu de lavar os pratos que usei ontem. Onde você está com a cabeça?!
- Desculpa, seu arrombado filho de uma puta! – pensou – Desculpa. Logo estou em casa.

Apesar da pequena indelicadeza, dessas que acontecem todos os dias, voltou para casa sorrindo, com o pensamento a mil. Havia disposição para o dia seguinte.

A caminho do trabalho, passou em frente à loja. E, de relance, observou novamente o cartaz. O coração apertou de forma estranha. Faltou-lhe o ar por alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos... o tempo parou? Olhou, subitamente, para o relógio. Atrasou-se cinco minutos. O elevador não tolera sequer atrasos de dois minutos! Patrão reclamando. Telefones tocando incessantemente, papéis e mais papéis para assinar. Sorriso nos lábios.

Fim de expediente. Seus olhos já não notaram os pássaros na árvore cantando a melodia da vida. Seus olhos não notaram o céu aberto, nem as flores, nem as poesias das ruas empoeiradas. Seus pensamentos pararam nele, no homem de sorriso misterioso, de charme impresso em alta definição, homem com mais de 100 mil cores!

Novamente estava em frente à loja, mas... Que diabos! Onde estava o cartaz? Seus olhos marejaram. Seus lábios tremeram no que seria o maior susto de sua vida. Sentiu medo. Ajoelhou-se, sem se importar com os transeuntes mecanizados. Ajoelhou-se no desespero do desencontro. Levou as mãos à cabeça e olhou ao redor, com lágrimas descendo pelo rosto. Uma luz! No lixo da esquina próxima, jogado junto ao chorume do lixo acumulado de dias, estava o cartaz. Em meio aquela podridão, o sorriso do homem do cartaz anunciava um recanto de paz. Levantou-se e correu para o lixo. Jogou-se ao amado. Jogou-se como quem procurava insanamente comida em meio aos sacos e cestos. Abraçou o cartaz, deitada ao chão.

Aquele momento único, aquela vitória, aquele alívio, aquele encontro romântico... aquele sorriso convidativo! Olhos brilhando, as lágrimas agora eram de felicidade. “Eu te preciso”, sussurrou ao ouvido do cartaz. E beijou-lhe a boca com amor e devoção.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CACTO

Sei que será o melhor para mim. Curiosamente, será o melhor para mim!

O problema é que o melhor às vezes dói mais que sentar no cacto.

Mas se me alargar de forma que meu cu possa abarcar o mundo e toda a sua sorte de acontecimentos, então topo sentar no cacto!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

OLHOS CLAROS

Ela tinha olhos claros. Azuis, se não me engano, ou tão verdes quanto o céu em dias de sol. Ora, destaco que, em situações não adversas, este mesmo céu seria bem mais digno de minha atenção e de meus escritos que aqueles olhos.

Na realidade, já é espantoso que eu comece a prosa dizendo sobre aqueles olhos claros! Portanto, creio que tal registro de meus devaneios seja merecedor de um gesto louvável. Permito-me tomar o próprio ato por prêmio, embora não me seja esforço derramar minhas expressões em linhas.

Falei dos olhos claros? Perdão! Não são eles, com precisão, os protagonistas dessa história. Aliás, adianto-me ao dizer que há pretensão em minhas palavras ao tomar o fato, singelo por si, como história. Contudo, acerto ao dizer que a beleza de todo o fato esta contido naquele olhar. Olhar, ao que a ciência me  permite saber, só é possível quando há olhos que fitam algo ou alguém. Sejamos diretos: um belo olhar, vindo de olhos claros, fitou meu olhar instigado.

Mas o que estou dizendo? Estarei eu escrevendo um involuntário e extenso prólogo apenas para relatar dois olhares que se cruzam inesperadamente? Não! Os prólogos pertencem às obras já findadas, às grandes histórias de centenas de páginas. Não posso me estender tanto em um prólogo quando ainda não sei ao menos qual será a história que se seguirá.

No entanto, mesmo desconhecendo a causa exata que instigou meu olhar, sei que fui igualmente instigado. E ela tinha olhos claros.

O fato de serem claros os olhos merece destaque. Nunca o azul ou o verde-céu prenderam tanto minha atenção. Quiçá tal feitio decorra de uma sede que tenho de inovação, de nova vida! Toda aquela beleza ali exposta, como se fossem os olhos o centro do encanto, atraiu meu olhar.

E desejo, de forma ainda primária, que meus olhos também tenham atraído a atenção daquela que me fez, após tanto tempo em lamento, reescrever sobre uma sensação que já não conhecia: o voo da mente!

Reforço aqui que não são os olhos protagonistas do fato. Revelo que o protagonista é o próprio fato. Revelo também que isso não é uma história, mas que alguma história feliz poderá ser escrita a cores azuis ou verde-céu. Quem sabe este registro não seja, um dia, o prólogo de nosso encontro...

O que escrevo, portanto, somos nós e nada mais.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

OSCULAR

Terapia? Assim como a vida nos deprime, pode ela mesma ser a terapia. Tanto Faz!

Pensamentos, vícios, fome! E uma barra de chocolate. Chega a ser prazeroso o simples fato de abrir a embalagem! Talvez seja um momento de regresso à infância, àquele momento em que, empolgado, desembrulhava os presentes (seriam brinquedos ou roupas?). Mas é fato que o tesão infantil é bem mais bonito. Costumava ser, eu acho, embora eu não ficasse de pau duro ou aéreo.

Embalagem aberta. Hora de comer o chocolate. Não! Isso seria comum demais. Pedaço à boca, sabor, pensamentos, vícios... Céus! Estou beijando o chocolate!

Passeio a língua, acaricio, entrego-me ao beijo. Sinto que o chocolate se entrega! Sei que está derretendo por mim. É o gosto da vida! Ao menos o gosto daquele momento.

Ouço a música a tocar. Uma bela melodia! Ainda estou beijando. Beijo de olhos fechados. É agradável o sabor! Teria Isabelly um beijo tão doce? Abstraio. O chocolate me beija.

Em todos os cantos beijos apaixonados. O vento beija o rosto de alguém; o pranto beija os olhos de alguém; um sorriso beija os lábios de alguém; alguém beija alguém... Eu também sou beijo, tocando folhas e loucuras.

Eu sou um beijo intenso! Eu sou a língua dançando na genitália da alma. Eu sou a saliva saboreando o orgasmo da vida. Eu sou abusadamente oscular!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

TRONO METROPOLITANO

Era o cenário ideal para iniciar um grande romance metropolitano, um belo romance da cidade grande!

Horário de pico, ônibus em direção à zona oeste. Para o horário, o ônibus estava vazio. Consegui um assento ao fundo. Era um daqueles bancos individuais, feitos para que se carregue mais desolados em pé ou feito sob medida para os mal amados e ranzinzas. De qualquer forma, era eu quem estava lá.

Havia, claro, pessoas que não conseguiram se sentar. E não era por dor de cu. Simplesmente não existia sequer um banco disponível, o que é de se esperar de um ônibus da capital.

Eis que entra no veículo a estrela da história. Era uma garota jovem. Magra, mas com um belíssimo corpo. Cabelos pretos, rosto encantador e olhos maravilhosamente castanhos. Ficou em pé, logicamente. Estava de costas para mim, próxima a meu assento. Eu podia ver aquela bundinha delicada e gostosa, aquela cintura sedutora, aqueles cabelos negros... bendito seja o horário de pico!

Eu não conseguia parar de admirar aquela linda garota. Por um momento ela olhou para trás, despretensiosamente, e seus olhos encontraram os meus. Eu a olhava com os olhos de encanto ou desejo. Logo seus olhos desviaram. Voltou a olhar para frente.

Imã. Ela era feita de imã e meus olhos eram metais, vulneráveis à atração! Eu podia sentir meus olhos querendo saltar das órbitas para colar naquela beldade. De repente, como quem arranja pretexto para olhar para trás, ela virou de lado, olhou ao redor e passeou seus olhos nos meus.

Céus! Eu poderia ter me apaixonado! Ela olhou diversas vezes. Havia percebido que eu a admirava. E acreditei que ela me admirava igualmente.

O assento à minha frente esvaziou, outro banco para mal amados, assim como o meu.

Ela sentou-se ali. Oh! Já não era mais um banco de mal amados! Era recanto de beleza, trono de princesa urbana, ninho de formosura em meio ao caos da metrópole!

Sim, ela estava sentada à minha frente. Céus, eu estava sentado atrás dela! Até o trânsito congestionado sugeria nosso enlace: o ônibus parado, motor ligado, fazendo com que o veículo desse pequenos solavancos para frente e para trás, para frente e para trás, para frente e para trás...

Eu a olhava fixamente. Ela olhava pela janela, mas seus olhos sempre fugiam e, disfarçadamente, olhavam os meus.

Nós estávamos namorando. Sim, era início de namoro, tímido, desajeitado, cheio de desejo! Nossos olhos diziam isso!

De repente, sua mão direita arrumou seus cabelos e... puta que pariu! Eu vi uma aliança em seu dedo! Como ela pôde?! Ela me traiu! Tudo bem, tudo bem. Resolvi perdoá-la e continuei nosso romance.

Era noite e começava a esfriar. Ela tirou de sua mochila uma blusa rosa. Ajeitou os cabelos e começou a vestir a blusa. Eu olhava seus movimentos como se ela estivesse fazendo um strip-tease. Era um strip às avessas, mas igualmente fascinante, ao menos para mim que poderia passar o resto da noite a observando, com ou sem roupas. Ela ainda me olhava disfarçadamente.

Eu não conseguia disfarçar. Eu a olhava descaradamente! Eu queria sorrir para ela! Eu a queria comigo!

Mas ninguém nunca morou em um ônibus e veio o momento em que ela chegou a seu destino. Levantou de seu assento, caminhou até a porta que ficava na parte central do ônibus e desceu sem olhar para trás.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

BAGUNÇA SEXUAL

Fazer sexo usando camisinha? Quem consegue fazer sexo usando camisinha? Ninguém!

Já parou para pensar no termo “fazer sexo”? Esse termo significa “gerar cria”, “originar uma vida”, seja essa vida do sexo masculino ou feminino. Exatamente: fazer sexo!

As pessoas, na realidade, não fazem sexo usando camisinha. Elas transam. Elas fodem. Elas trepam! Isso sim é possível! Mas gerar cria usando camisinha? Jamais!

Daqui a pouco estarão falando em comer sem ingerir, pegar sem ter nas mãos, catar sem recolher...

domingo, 6 de novembro de 2011

CUMPLICIDADE II

É um reflexo.

Não encontro em mim o motivo da busca. Na realidade não me encontro em mim. Sendo assim meus olhos flutuam, desanimados, por este vão mundo tão cheio de coisas. Há de existir qualquer surpresa que possa ser captada por estes olhos cansados. Avisto!

Avisto alguma surpresa. Sua cor é castanha. É um castanho sério. Um castanho que não se encontra em si e que flutua.

Busco neste castanho – sério, mas indiscutivelmente belo – o motivo do desânimo contrastante que envolve aqueles olhos. Busco. Será que, na realidade, o que procuro ali são minhas razões de desânimo como se tudo fosse a tradução perfeita do meu momento?

Mas sinto que estes olhos também buscam nos meus esta tradução. É um apelo, uma súplica! O que acontece em mim? Em nós?

É um reflexo. Serei eu espelho coincidente ou serei contágio? Será que estes olhos que me contagiaram?

Somos cúmplices silenciosos um do outro. Somos o esquecimento de que até nessas dores há beleza irrefutável.

sábado, 29 de outubro de 2011

CUMPLICIDADE

Fui cúmplice. Daquele pranto fui cúmplice.

Não fui cúmplice da causa da dor. Aliás, desconheço a causa da dor, embora eu desconfie que em cada dor haja o mesmo vazio.

Fui cúmplice porque por dias segui aqueles olhos castanhos como quem busca o oásis no deserto. Desculpem-me a metáfora clichê e desajeitada, mas quem tem sede da vida não poderia apresentar outra ideia.

Segui aqueles olhos. E eles, por força de minha imaginação ou por força dos fatos, também seguiram os meus. Foi assim que me tornei parte do crime.

E não fui parte do crime de forma dolosa. Na realidade, nem culposa. Fui vítima, tão vítima quanto aqueles olhos castanhos chorosos.

Fui cúmplice de um momento doloroso. Fui parte daquela dor porque a dor daqueles olhos se espelhou nos meus. Ou será que meus olhos se espelharam naquela dor?

De qualquer forma o sentimento de impotência tomou toda a minha manhã e começo da tarde.

Fui cúmplice covarde. Covarde porque não derrubei meu pranto naquele momento. Covarde porque não disse “passará”. Meus olhos bem tentaram dizer, mas eles eram tão cúmplices, tão tristes!

Fui cúmplice. Daquele pranto fui cúmplice. E minha cumplicidade se fará em silêncio. Se fará em solidariedade ao silêncio daquele pranto gritante, gritando em silêncio de uma vontade de ser cúmplice de algum sorriso.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

CONFISSÃO GOZADA

Ele gozou na minha cara. O filho da puta gozou na minha cara! Acha que sou que tipo de mulher? Uma puta? Nem puta é tão humilhada! Acha que só porque chupei seu pau ele tem direito de fazer isso comigo?

Entendo que todos têm o direito ao orgasmo, mas tinha que ser desse jeito? Para ele está tudo bem, afinal eu não pinto a cara dele de branco quando ele me chupa. Mas achar que gozar na minha cara é compensar o trabalho feito, isso é inadmissível!

Confesso que não foi ruim. Você, que também é mulher, entende que a coisa não é lá muito agradável realmente, mas também não é algo totalmente desprezível. Claro que gosto é gosto, mas na hora do sexo certas coisas são superáveis... Mas nem por isso deixarei as coisas bagunçadas assim! Com que direito ele fez isso? Tirou minha honra, me tratou como uma qualquer, tentou me diminuir!

Logo ele que sempre me tratou tão bem, com tanto respeito... Um exemplo de homem... Não! O que estou dizendo?! Ele quis me inferiorizar!

Eu poderia ter parado. Eu deveria ter imaginado o que estava por vir. Por que mantive a arma em minhas mãos? Por que vivi o calor dessa emoção tão livremente? Por que dei asas à minha libido desse jeito?

Oh! Estou arruinada! O que dirão de mim se souberem? Não vão mais me aceitar como mulher, estou fadada ao desrespeito! Todos vão me tratar como vagabunda!

É tão triste ter a minha sexualidade fragilizada dessa forma! Que todos me perdoem!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

QUASE

Carolina! Eu decidi quase te adorar em silêncio. Falo de um quase silêncio, nunca de um quase adorar. Você talvez saiba que minha adoração é sempre inteira. De qualquer forma, decidi quase conter o que penso.

Decidi, Carolina, quase fingir esquecer, quase enganar minha mente, quase não me sufocar...

Às vezes penso estar contigo e quase acredito. Eu quase sempre voo. E quando não voo, quase sem querer me vejo repousando em você. E quase sempre estou sempre perdido, seja em um quase céu ou quase em teus lábios ("quase" me soa tão distante).

Eu decidi, Carolina, quase te adorar em silêncio. Este quase distante é o que ainda me aproxima de ti...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

COMPRAS, SEXO E DESPERDÍCIO

Ela não era exatamente a mulher dos meus sonhos. Aliás, em sonho nenhum apareceria algo tão inusitado!

Quando transamos, algum asco deveria ter me acometido, mas talvez eu tenha transcendido o materialismo sexual e tenha me entregado simplesmente ao prazer daquela estranha companhia e seu quase morto apetite de foder.

Tudo começou em uma tarde de sol – desculpe se parece clichê dizer uma coisa dessas, dia de sol... Acredito que seja até desnecessário dizer sobre o tempo, até porque, em dias mais frios e chuvosos, pessoas de idade mais avançada preferem o calor da cama que a temperatura das ruas. Era o caso dela.

Ela saia do mercado, cheia de sacolas nas mãos, quase se rastejando junto com as compras. Era velha. Sei que dizendo assim a imagem que lhe vem à cabeça é de uma múmia, mas não. Era velha e até mesmo conservada, o que não significa que as marcas do tempo não a tenham atingido.

Ao ver aquela cena esdrúxula, prontamente me ofereci para ajudar a carregar todas aquelas compras – bem peculiares ao gosto de pessoas velhas, por sinal –, biscoitos de banana e canela, frutas, sopas instantâneas, até mesmo balas de coco entre outras coisas menos interessantes.

Nunca tinha a visto antes, mas para a minha surpresa ela morava perto de mim. Sim, eu levei as compras dela até sua casa. O que eu fazia na rua aquele horário? Não sei dizer. Apenas caminhava por meu bairro sem um rumo certo. E talvez a iniciativa de ajudar aquela senhora fosse simplesmente falta do que fazer, pretexto para uma distração qualquer.

Durante aquela curta caminhada de quatro quadras conversei com ela. E ela parecia tão dona de si, tão vivida, tão experiente! Todos os excessos cabíveis aos mais jovens ela já havia cometido e isso a tornava mais sincera.

Eu, em minha pouca idade, talvez por observar o mundo com olhos raros, já estava um tanto enjoado de garotas que agiam como se tudo fosse apenas uma brincadeira, um passatempo, uma paixão ignorável, algo relacionado a idade adolescente. Igualmente me incomodavam as mulheres já feitas que agiam como se soubessem de tudo, dessas que generalizam todos com base em um desprezo imposto. É verdadeiro dizer também que eu odeio todos os homens que não entendem a sensibilidade da vida. Essa velha, que eu acabara de ajudar, transmitia justamente o que nunca encontrei em outras pessoas, uma virtude excepcional, um caráter inabalável.

Chegando à sua porta ela me convidou para entrar. Senti malícia em seu jeito de falar, com aquela voz um pouco falha. Aceitei o convite. Talvez ela procurasse alguém que não se importasse com sua aparência, algo que certamente não teve em sua juventude. Da mesma forma, eu procurava algo que não fosse apenas estético e mundano.

Ela me levou para o quarto. Tirou minha roupa e também se despiu. Não era tão enrugada quanto poderia ser, mas seus seios já eram um tanto caídos e suas coxas eram ásperas. Poderia eu cobrar alguma beleza? Meu saco, naturalmente enrugado, também não era nada belo, mas ela encarou e muito bem!

Éramos Eros – ser inconsequente – e Medusa – após sua transa frustrada com Poseidon – na mesma cama, em uma inexplicável ação mitológica.

Durou pouco: o tempo dela reclamar de dor na coluna e eu perceber que as coisas haviam fugido do meu controle.

Vesti-me e me preparei para ir embora. Ao sair, ganhei uma bala de coco de brinde.

Nunca mais a vi pelo bairro. Soube tempos depois que naquele mesmo dia ela havia falecido em sua cama com um sorriso nos lábios, como se esperasse um momento de felicidade para deixar a vida.

Eu continuo vivo. Fazer compras me lembra o quanto as pessoas desperdiçam a vida.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

CARTÓRIO EM CHAMAS

Bem... a princípio preciso dizer que meu nome na escola nunca foi Carlos ou Paulo ou Vinícius ou Fernando. Não preciso dizer que meu nome nunca foi nenhum desses, obviamente. Tenho um nome, sim. Mas até hoje nunca foi notório. Eu poderia pronunciá-lo aqui, neste momento, para tentar fazer com que ele (ou eu) possa ser mais visível. Mas acho que nem sequer sou meu nome.

Ah, Carlos sim foi e é seu nome! Assim como Paulo, Vinícius e Fernando! Ou não. Talvez os nomes deles tenham sido eles, não o contrário.

O fato é que eu não sou meu nome e nem acho que ele seja eu. E sei que a cada dia que construo o meu nome parece que faltam tijolos. Não, não! Não me refiro a sobrenomes ou nomes de família. Esses eu os tenho, tanto quanto o meu nome que teimo construir dia após dia.

Eu sei que parece um tanto contraditório. Por que construir o que já tenho? Talvez não seja construir. É mais algo como “edificar” ou colocar em pé.

Não! Não digo que estou desmoronando, caindo em escombros, claro que não! Mas o caminho até o céu é muito longo. E não estou falando de nenhum paraíso. Não acredito em nada disso. Falo de algo muito mais substancial e transcendente. Falo de alçar voo!

Talvez eu tenha errado em minhas colocações. Voo não se edifica, certo? De qualquer forma, é algo a se conquistar.

Para finalizar preciso dizer que meu nome nunca foi e nunca será Carlos, Paulo, Vinícius ou Fernando. Preciso dizer também que nome é algo que não tem a menor importância, na realidade. Mas se me chamarem de “Asas” serei feliz.

terça-feira, 29 de março de 2011

A MESMICE

A mesmice? Ah, claro! Ela não é algo extrínseco. Ela não faz parte das coisas ao seu redor. Não é uma consequência do que não acontece no ambiente exterior. Ela é justamente a falta de organização das ideias pessoais, ideias internas. Organizar é ação! Quem não organiza os pensamentos passa por um tumulto que impede de respirar novos ares.

Mas se existe um tumulto, como posso dizer que há mesmice? Simples: esse tumulto sempre acontece por conta de um único fator. Esse fator é invariável, é constante, é monótono. O fator em questão é a própria confusão mental que se faz a partir da falta de organização de pensamentos.

Não há mesmice que não venha de dentro de nós. Não há mesmice que não possa ser mudada com nossas próprias atitudes. Pensar no que somos, no que fazemos, organizar nossos atos e nossos desejos, isso certamente contribui para a quebra da mesmice.

Impulsos? Por que não dizer que são exposições involuntárias de organizações pessoais? Mesmo que sejam organizações não revisadas, mesmo que pareçam fora da lógica racional. O impulso, se analisarmos, pode ser uma lógica racional inconsciente ou, poeticamente falando, a lógica da sensibilidade extravasada após uma organização sentimental, algo que quebrou as barreiras da mesmice.

Eu, particularmente, não acredito tanto assim em racionalidade quando falamos de sentimentos. Prefiro a poesia. Prefiro a visão romântica. Ela conforta um tanto mais.

E se por acaso eu aparentar confusão nessas linhas, talvez seja resquício de alguma mesmice. Mas eu tenho a poesia para me ajudar.

quinta-feira, 17 de março de 2011

INDIFERENÇA TÂNTRICA

Minha indiferença é tão atenciosa!

Quando decido mandar tudo para a puta que pariu, eu o faço com gosto! E não mando para qualquer puta que pariu, não! Só mando para as putas mais arrombadas.

Quando eu quero que se foda, eu quero que seja aquela foda inesquecível! Não falo de uma rapidinha, obviamente. Falo de algo mais tântrico. É um "foda-se" prolongado, sem gozo.

Sou atencioso até demais! Tanto que me preocupo com a puta e com a foda, com o parido e com o fodido. E minha indiferença acaba sendo uma máscara ou proteção.

Ah! Eu quero que se foda! Tudo isso que vá pra puta que pariu!